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sexta-feira, novembro 22, 2013

Hipocrisia


Renato sente fúria quando vê na televisão casos de brutalidade com animais. Quando chega ao quintal da família, seu cachorro começa a latir porque sempre estranha a presença dos primos. Renato sempre agride seu animal de estimação querendo que ele fique quieto e se acostume com seus parentes.

Carlos cursa o Ensino Médio. Pratica bullying diário com os garotos indefesos da escola: humilha-os a um ponto extremo. Nos cumprimentos, na despedida, os garotos estão descendo as escadas e recebem mais do amargo veneno, pela satisfação de Carlos. No dia do temporal, semana passada, alguns amigos o receberam com brincadeiras que considerou de mau gosto. Esclareceu: ‘’que ninguém me zoe; eu não gosto disso’’.

Richard tem depressão. Em suas épocas de crise, e apesar de querer o suicídio, o que mais precisa é de colo. A amizade que dá ouvidos e escuta sem opinar, a que ouve e aconselha, já que precisa. Richard não consegue ser prestativo em nenhuma época do ano. Não se doa como tanto deseja e como tanto briga quando não é atendido. Fica desgostoso o ano todo.

Tom chega em casa do trabalho revirando toda a cozinha. Quando não encontra algo para comer que o satisfaça, espanca a mãe. Na hora que recebem o jornal em casa, com exposições de mães que abriram B.O.s contra os filhos, Tom dispara: ‘’mas que filhos da puta! Como têm coragem de fazer isso?!’’.

Vegetariano de espírito, este é André. Assim como Renato, defende os animais, só que mais. Quando Lady GaGa se expôs em 2010 com o vestido de carne, André surtou. E surta igualmente quando vê membros da classe A expondo grandes e luxuosos casacos de pele, vindos de coelhos, chinchilas e raposas. Mas André come carne todo dia. Talvez a carne de algum animal que tenha sido morto por uma boa pele.

Homossexuais afeminados passeiam pelos grandes centros comerciais da cidade, sozinhos ou agrupados. Lucas, influenciado pelo preconceito dos amigos, profere ofensas pesadas a cada encontro com os gays. Sempre que há um pedaço da sociedade que compartilha do mesmo pensamento dos amigos de Lucas presente, impulsiona-se o querer tomar atitudes erradas. Mas Lucas não pode lhes dizer o que fazer, pois se deita a cada noite com homens diferentes, na posição de mulher.

sábado, agosto 24, 2013

O Homem que Escrevia Errado


Num fórum qualquer as pessoas escarravam opiniões ácidas vindas de mentes férteis, mas nem sempre críticas e às vezes dignas de incapazes aspirantes a Professor Pasquale:

Roberto disse: ‘’acho que se o comunismo dominar o mundo isso vai ser o esterminio da populaçao mundial ou de parte dela ninguem podera aguentar. tudo vai esplodir a escravidao vai voltar. a alienação so vai ajudar eles os vermelhos. ‘’
13h41

Andrea disse: ‘’O comunismo está comendo pelas beiradas. Está claro que ninguém mais pode deter a URSAL e nossos políticos são todos farinha do mesmo saco, salvo aqueles que não fazem ideia da massa de manobra no poder que estão sendo. ’’
13h43

Hermes – resposta a Roberto: ‘’Só acho que sua opinião não serve para nada já que escreve tão mau. Antes de comentar num fórum desses que tal estudar português? Não faz mau a ninguém e não vai fazer a você. É uma vergonha se espor escrevendo assim. Para de babozeira, você não sabe de nada do comunismo, Roberto. ’’
14h00

Incógnita.

domingo, julho 28, 2013

Onomatopeia


A lembrar: Quando os sons falam, quando a vida é lugar-comum por causa dos problemas e faz do comunismo (comunicação aberta) o carma coletivo, seguido por vida nova trivial.

— Psxiii... (avião)

— Tatapipitata, tapapipitata-tara-taturuturutara, taturuturutara, ppipiipi... (rumba e carnaval)

— Triimm, trimmm...                                                                                                                                                  
— LAÔ, OSTEU UASEQ CHNDOGAE. E LEDIF? HCOA UEQ ÁJ CGHEOU ON ROFO. CÊVO TÁSE IDONV? (comunicação reservada)

— O GIGANTE ACORDOU: Zzzz... Tsc, tsc.

— Vrrummm...

— Fffffuuuu... (sopro do vento) CHOQUE-TERROR-IMPOTÊNCIA E SENSAÇÃO DE TER SIDO TRAÍDO (som indescritível)

sexta-feira, julho 26, 2013

Soslaio

Eu vi um homem no ônibus se roçando numa silhueta de boas formas. Vi a água ir a todas as direções quando a ventania agitou a chuva daquela tarde.

Um menino não conseguia andar sem se desviar dos transeuntes, pois a direção em que ia tinha pessoas demais.

Eu vi e fingi que não vi um mendigo defecar próximo à travessia em plena luz do dia! A mulher de vermelho espirrou e tirou o lenço para se limpar. Acho que não teve a ver com a primeira visão.

Ah, não. Mas não queria ver o epicentro da explosão solar; hoje acordei com os olhos sensíveis e incapaz de tanto.

Tinha sexo oral acontecendo do outro lado da rua e pessoas usando droga. Uma delas pirou e começou a gritar que queria ‘’chuva ácida’’ caindo do céu. Pensei: estranho.

Eu vi o mesmo homem que se excitou atirando no peito da bela silhueta. Parece que ela morreu. Pensei: estranho.

sábado, julho 06, 2013

Era de Ouro


Era uma vez um idiota útil. Do lado pertencente, uma conspiração de tomada do poder crescia e ganhava força. Os músculos integram a corpulenta forma do poderio vermelho, simbolicamente. A foice e o martelo estrelam as campanhas políticas de quem protagoniza o espetáculo subliminarmente.

Ouvem-se risadas nos bastidores. Estão comemorando passos largos, mas que foram dados sem pressa, calculada e premeditadamente. Há décadas não estamos em boas mãos. Foram nas recentes que se utilizaram as ideias de um alemão velho, que usava barba, era ateu e racista.

Agora a um tiro do golpe, e sem precisar de mira, os representantes da gente suplantam suas intenções; dão direitos e ajudam os pobres; estes aceitam, e os energúmenos sobrepujam aquela massa desprovida.

Os meios da voz se renderam aos homens maus pelas cifras, persuasões e... Ingenuidade. Esta última não altera os resultados pútridos do ''próximo grande salto'' que o Brasil viverá. Acontecerá.

E eu pequei. Sabe quando? Quando permiti que os mesmos meios me convencessem. É a segunda vez que mudam a estratégia: agora o caos é a paz do lado dos capachos.

domingo, junho 02, 2013

Tropicalidade

– Olha: veja como o Sol está perto de se pôr! As nuvens parecem perder a magnitude pelas cores ‘irradiadas’ pelo astro rei. Elas se transformaram num mero capricho do Sol que adora colorir as coisas. Esse mesmo que cobre nossa fase diariamente e queima sem pudor. Egoísta.

Agora voltemos às nuvens, conjuntos de partículas de água muito finas. Repare como elas se movimentam e nos enganam com tanta facilidade: a maestria da magia: você olha e está lá; você olha de novo e sumiu.  Culpa dos movimentos verticais do ar, que não deixam as pobres nuvens se estabilizarem, coitadas. Mas mais coitada de mim, que nunca consigo pegar uma delas parada.

O melhor sempre fica para o final, não é? A brisa, também conhecida por ar e vento fresco, refresca. Antes de, ou enquanto forra meu ser externo, acaba surrupiando meu próprio controle corporal. Bailarina girando, remoinhando, rodopiando... – falou como se estivesse sozinha. – Reconfortante.

Espera – olhou ao redor. – Ainda tem as flores, os animais e as pessoas geniosas. Nossa flora resguarda preciosidades – todas as flores são – que necessitam de ajuda externa, João. Algumas têm muita classe, são sofisticadas; outras são esnobes sem um pingo de humildade. As primeiras até podem ser humildes, vai... Daqui elas vão para mãos humanas, usadas para refazer resultados de expectativas, resolvendo agora antigos dissabores. Acho necessário reconsiderar as flores.

Posso definir algumas estruturas de animais como engenhosas casinhas meticulosamente construídas. Acho a girafa a melhor delas. O olhar doce dos animais, quando estão em paz consigo mesmo e o mundo aqui fora não os perturbam, reflete pura ternura, a qual todos os homens poderiam – querendo dizer ‘’deveriam’’ –  compartilhar. Hum... os beija-flores ajudam as flores a se reproduzirem, pelo processo abiótico.

– Abiótico? Eu achei... – Anna interrompeu-o.

Guimarães Rosa questionou por que os homens não inspiram ternura como todo animal. A natureza é engraçada do lado de cá. Do lado de lá é sofisticada. As pessoas são difíceis e não valorizam a barganha da gentileza que têm em mãos. Reclamam muito quando deveriam compreender que todos estão no mesmo barco, na mesma miséria. Dão-se muitos reveses, meu amigo.

– Olha, o Sol está voltando!

quinta-feira, abril 25, 2013

Nagasaki - Parte II

Leia a parte I aqui.

(SUGESTÃO DE ÁUDIO PARA COMPLEMENTAR A LEITURA)


1945: 9 de agosto

A escuridão assentava-se sobre a cidade de Nagasaki, localizada na ilha de Kyushu. O solo perdia as cores habituais e ia enaltecendo-se ao negro: o absoluto negro da morte. A crença tomada por muitos de que a alma se expulsa do corpo quando a vida cessa se dava ali.

Muitos dos corpos não eram mais que um efeito da pólvora; as sombras atômicas se encontravam espalhadas por vários cantos: almas saindo, espíritos se desencontrando num ato emergencial. Um cortejo fúnebre no meio de toda aquela mortandade. 

Horrenda e tristonha era a tal imagem que só quem vivenciava podia perceber. Os ectoplasmas iam em todas as direções, contorcendo-se e urrando gritos de uma dor miserabilíssima. Os errantes em estágio inicial já assentados no inferno comemoravam a melancólica alegria de não terem que passar por todo o espetáculo que a bomba Fat Man produzia; a maldição deles era menor e menos duradoura.

Três dias antes

Naquele 6 de agosto uma vida já estava em processo de geração. Meiying foi carbonizada grávida e nem sabia que uma história de terror começaria ali.

***

O mundo dos espíritos guarda um terrível segredo: sob outra forma, todo e qualquer corpo continua a se desenvolver, não importando as condições em que tenha morrido; e, lá, a morte não é uma possibilidade.

Meiying e Hiroyuki se entreolhavam quando se iniciava a manifestação pavorosa de seguimento à vida. O feto malformado se expelia agora com o sentimento aturdido de Meiying e a indignação do mundo dos vivos. Aborto provocado pela falta de vida de um corpo amaldiçoado à condenação eterna.

‘’Toda a desgraça me acometeu! Eu quero meu filho, isso não é meu filho!’’ Ela não podia aceitar que um pedaço de pele e carne como aquele era parte dela. Gritava abominavelmente emitindo sons que só os espíritos emitem; sons potencializados de pessoas sendo assassinadas brutalmente, sem poder correr ou ver.

1947: 17 de maio-

A família Sakamoto seguia tradicionalmente cada costume japonês, mas não se detinha à não valorização do sexo e tinha em seu cerne a inclinação ao desvio de conduta mais sujo e perverso possível. Os patriarcas criavam cachorros e cavalos, uma atitude incomum no Japão. Usavam-nos para acoplar a genitália de seus filhos aos animais, enquanto assistiam e se regozijavam.

A mãe, Katashi, atiçava os animais masturbando-os e deixando-os lamber os lugares onde escorriam fluidos. O pai, Hajime, urinava e defecava por todo o espaço de habitação dos animais, isso quando não sangrava e escrevia imundícies pornográficas na parede.

Na época de cio, os rituais aconteciam diariamente. Os filhos abominavam todo aquele sofrimento, mas, o que os pais não sabiam, é que, inconscientemente, seus herdeiros adoravam sucumbir às suas vontades, por isso não denunciavam e nunca fugiam de nada. Hajime e Katashi finalizavam com a prática do bukkake, ejaculando e jorrando seus líquidos na face dos adolescentes.

***

Há céticos que ainda duvidam da existência de assombrações. No período da invisível disseminação dos ectoplasmas cada um deles foi direcionado a um lugar. Nagasaki, a mais de trezentos mil quilômetros de distância de Hiroshima, foi bombardeada mais uma vez, só que pelos espíritos andarilhos. Tão incauta e improvidente cidade de Hiroshima, sem culpa nem medo.

Hiroyuki e Meiying se debateram entrelaçados até sua parada final: a casa da família Sakamoto. Que apercebimento horrível tiveram quando presenciaram os rituais sádicos dos patriarcas. Não demorou para que Meiying ficasse muito perturbada e reagisse.

Os púberes, chorando, olharam para cima. Primeiro a parte mais importante da família: Meiying sugou o corpo à parede e engoliu a cabeça de Katashi, aspirando-o, enquanto o sangue irrompia e fazia a parede parecer hemorrágica. Hajime, o primeiro membro da família com desordem mental extrema, sofreu um arranque de órgãos externos quando, violentamente, foi trazido à parede, a um metro de distância de onde o corpo de Katashi agora despencava.

Esparramados no chão sobre a reação apavorada dos filhos. Os mesmos filhos que se jogaram contra a parede ensanguentada em busca de resgatar os pais e acabaram se matando.

Os espíritos vagam. Jamais se retiraram do solo amaldiçoado do Japão. Permanecerão ali por todos os séculos póstumos às explosões da Segunda Guerra Mundial, assombrando quem quer que possam, em busca de renascimento. Estão pagando pela imprudência e desatino do homem, o mero e inconsequente mortal.


segunda-feira, março 04, 2013

Hiroshima (às almas das vítimas do bombardeio)

(SUGESTÃO DE ÁUDIO PARA COMPLEMENTAR A LEITURA)


5:30 p.m.

— Esse aqui é um dos últimos caixotes, já eu tô indo pra casa!

Não esquece que amanhã você entra mais cedo, Hiroyuki. Eu não tenho condições de trabalhar sozinho quando o carregamento chegar.

O Sol estava quase se pondo na cidade de Hiroshima. Meiying era uma imigrante chinesa que acabara de conseguir um emprego como secretária numa multinacional e encerrava o expediente no mesmo horário em que seu namorado, Hiroyuki.

Essa é uma daquelas paixões avassaladoras (e verdadeiras), que nunca deixam de impressionar pela falta de pudor no que diz respeito aos limites do sentimento e pelo próprio tempo de aproximação entre as duas pessoas. Só o ataque de uma esgrima seria capaz de partir dois corações que não se afastam de nenhuma maneira, como gêmeos siameses, e a distância nunca é nada.

8:15 p.m.

— Diga-me, meu amor, o que se pode encontrar de mais puro e tenro dentro de você desde que nos conhecemos?

— Meu amor — Hiroyuki ri, agraciado —, eu olho para seus olhos e sinto vibrar-me. E essa vibração indica que você conseguiu alcançar o mais profundo e antes apagado ponto da minha alma. Era secreto, inalcançável, até esquecido, chame-lhe como for, mas agora é seu.

— TODO meu?

— Eu sou todo seu. E nós? Ah, nós somos um só agora.

2:22 a.m.

Longe dali se encontrava o artefato que não só afastaria seus corações, como também os mutilaria penumbrosamente. O Enola Gay, que carregaria alguns tripulantes prontos para soltá-lo em âmbito terrestre em alguns minutos, estava sofrendo os últimos ajustes.

A noite se arrastava longa e morria com o passar das horas. O casal se marginalizava do mundo entorpecendo-se com um filme nostálgico, que lembrava-lhes minúcias do passado tão quanto os unia ainda mais. Um laço de perfeição estética caso fosse físico e material; mas imaterial era aquela maneira de ser e de viver.

8:16 a.m.

A plenos vapores o explosivo de proporções catastróficas foi despejado. Um grito de guerra foi enunciado pela bomba que agora rumava em direção às vidas construídas e desconstruídas lá embaixo.

E, não obstante a sede de sangue em conjunto com a ‘’busca definitiva por paz’’ que exalava, o Little Boy irradiava contaminação, sufocando os que tivessem a certa distância do epicentro da explosão.

*

Fazia-se tarde para os que tivessem arrependidos. Vida extinta no perímetro que antes confortava corações e pessoas; as vidas de Hiroyuki e Meiying se foram junto com doze horas e um minuto.


Mas um sentimento verdadeiro nunca se nega, nem nunca acaba.


‘’Não existe argumento mais forte a favor da paz do que a imagem de Hiroshima devastada. ’’ — Opinião final dos analistas responsáveis por documentar os efeitos do bombardeio (relatórios da década de 40).



Little Boy: nome da bomba nuclear lançada em Hiroshima, no dia 6 de agosto de 1945. 

segunda-feira, fevereiro 04, 2013

Inconspícuo

BASEADO NA OBRA ARTÍSTICA DE CLAIRE FISHER

(SUGESTÃO DE ÁUDIO PARA COMPLEMENTAR A LEITURA)

, uma mulher no cemitério, sentada numa cadeira de praia e bebendo...
, uma mulher bebendo no cemitério e sentada numa cadeira de praia...
, uma mulher sentada numa cadeira de praia...

Bodas de Esmeralda, de Ouro, de Diamante, quem é que chega até elas hoje em dia? O pão esfarela-se e murcha. O favo não resiste e se destroi sob a condição de vazio, já que mel não é mais depositado nele. A vida de um casal que ainda resiste a uma situação não moderna e corriqueira de vida.

(Marta. Mulher rude e grosseira. Alberto. Homem com fraqueza de personalidade. Casados desde muito novos, nem chegaram à velhice e já conseguiram alcançar o temível. E a bebida, sua companheira e válvula de escape. Patrícia Gonzales. Pintora, fotógrafa, expoente da externação do nobre sentimento da alma, cuspida grosseiramente para a Terra suportar. Prestes agora a completar sua coleção de obras expressivas e autorais, buscou num vilarejo afastado a finalização para seu extenso trabalho.)

 Tá caçando o que por essas bandas? Nem tenta, de mim você não tira nada.

A mulher era irredutível, mas, após alguns minutos de lábia se deixou convencer pelo argumento de Patrícia que explicava o sentido daquilo tudo, sob uma condição. Não era mera coincidência o arraste existencial e vívido que Marta protagonizava.

***

Anunciava-se a exposição ‘’Pés. Terra. Existência. ’’, a qual resguardava um espaço com a pintura de Patrícia Gonzales, ‘’Meu Marido e Eu’’, vista com olhos audaciosos por um ladrão que, ambiciosamente, tornara-se curador da mostra já sabendo do que se tratava o trabalho da artista, porém não imaginava que uma atração súbita e absurda iria se despertar internamente no momento em que a visse.

***

Havia um cemitério bastante desorganizado nos arredores do povoado, e foi lá onde Marta pousou para Patrícia. Alberto não estava presente; não estava nem em casa há dias. A condição era que uma lápide para o marido fosse forjada e saísse na pintura, como se ele tivesse inexistente espiritualmente, já que fisicamente não comparecia.

Hernando organizava e cuidava dos mais ínfimos detalhes dias antes da estreia. Na outra ponta, Patrícia pintava o que viria a ser a atração mais intrigante de toda a exposição, e nem pensava em enviar esta à curadoria.

As obras de arte foram chegando e sendo depositadas no interior do museu. Por conta de um relance, Hernando percebeu uma que se destacava...

O que explica a reação e ação do curador quando a vê é o simbolismo do distúrbio da mente louca e complexa  sua performance fora da mente.

***

Finalmente chega o dia evento. Patrícia Gonzales será homenageada pelo seu próprio trabalho exposto, de forma que, de si para si, não há importância maior, emocionalmente falando.

Mas ela parou atônita em frente àquela inesperada obra. Algo estava errado, o marido não estava presente quando ela pintou o quadro...

domingo, dezembro 23, 2012

Mortuário (conto de necrofilia)

O amor diverge do prazer pútrido e psicologicamente inexplicável de quem transa com a morte, personagem direto desta história. Antonio vive num paraíso inexpressivo, paradoxalmente perturbador, com os cadáveres a que chama de ‘’meus’’.

Joana dos Reis morreu com blue waffle e não podia ser mandada a outro lugar senão ao necrotério de Santa Euliça, para, lá, sentir o que, em vida, não sentiu.

Eram duas da manhã e a essa altura Antonio já havia sentido a extremidade da morte. Ele gostava do cheiro podre que os corpos exalavam, dos fluidos que liberavam e da situação de vulnerabilidade a que estavam submetidos, ‘’todos para mim’’.

A penumbra lá fora era grandiosa e dava luz às ideias daquele homem. Tirou a roupa e se pôs em cima do defunto. A vagina tinha uma quantidade enorme de feridas e pus que Antonio não podia deixar de lamber e penetrar com dedos de mãos e pés... alheios. É que havia mais corpos naquela sala e ele debruçou uma mulher sobre Joana, tomou seus membros e os inseriu nela... Obscuro, as sombras estão me rodeando e eu não vejo nada além do misto entre luz e sua ausência...

– Quem se preocupa com isso? Ela está gozando junto comigo, olha.

É o que fala dentro. Num revirar de olhos sinistros o conjunto mortal de Joana era penetrado vagarosamente e só havia a claridão daquela sala testemunhando tudo. O mesmo teve um reflexo que só melhorou a situação para Antonio... Excitado, ereto e emputecido jogou-o de uma só vez no chão. Fodia mais e mais.

Aquela noite ia ser ainda mais longa.

Antonio guardava ácido sulfúrico no armário pessoal. O homem tirou o sapato do pé direito, jogou uma pequena quantidade no dedão de seu pé e rapidamente o inseriu na vagina de Joana, penetrando a deformidade concomitante do grito que oscilou pelo lugar onde um só trabalhava.

***

Seus gemidos embalaram os passos de um intruso no corredor. Teve que recolocar os cadáveres em seus respectivos lugares e se enfiar num armário de produtos de limpeza. O guarda externo fazia ronda pelo que também era um hospital e ficou longe de um triz para perceber o que se passava ali.

Antonio precisava de mais, precisava saciar sua fome de alma e carnal. Juntou as duas macas, era hora da penetração anal de punho, ‘’eu vou dar todo o meu amor para vocês’’.

A cada estocada as chagas externadas de Joana aumentavam de tamanho e largura. A sala toda fedia como se houvesse alguém em decomposição. Após isto, Antonio se levantou e urinou na boca na segunda mulher.

Lembrou-se de que tinha um pequeno canivete guardado... Buscou-o e arrancou o olho direito da mesma.

Pegou-o na mão e o levou até a vagina de Joana. De uma inserção seguida de mais estocadas, o órgão sumiu dentro daquela cavidade fétida.

A doença ginecológica de Joana já se encontrava perto de seu ânus, por isso não defecava há dias. Como não havia esforço para prender o que tinha de sair, e Antonio entendia daquilo, o corpo desprendeu uma leva enorme de fezes moles. Nessa hora enfiou o pênis e sentiu o excremento adentrar sua glande.

Ainda gemia e revirava os olhos quando achou que estava satisfeito, mas...

– Aaai, aaai! – Antonio ouviu um forte apito dentro de sua mente. Dessa vez aquilo não ia passar.

O vidro com ácido sulfúrico estava no chão. Uniu-se, rosto e corpo, mente e alma, e derramou todo o conteúdo da embalagem sobre si. Quando o enfermeiro matinal chegou, encontrou corpos com as partes de cima derretidas. Começou a sentir algo diferente.

– Eu sinto prazer...

quinta-feira, novembro 15, 2012

Matilha (conto de terror)

No centro de São Paulo funciona um dos cassinos ilegais mais conhecidos da cidade. Emanuel após cumprimentar alguns conterrâneos no bar da esquina passa a ouvir um longínquo assovio e toques de tambor. Dos desdobramentos que seu caminho lhe entregava viu uma adolescente muito negra, trajada de branco, dama de honra, girando lentamente que, de olhos fechados, entregava o amargo gosto do sentimento de morte lenta. Acelerou o passo estupefato por aquela visão agora cravada em sua mente. Sem pensar em olhar para os lados, viu de resvalo chamas de fogo. Sem pensar em parar, virou-se e viu dois corpos se corroendo em brasa.

Mais à frente – e de costumeiro, pensou: ‘’mais um desses, caçando onde dormir’’ – mas aquele era diferente. O espírito zombeteiro do mendigo se manifestava como criança perturbada, prostituta de meia-idade e personificava o Bode-preto como afobado por... ele não sabia explicar o quê. Verdade seja dita que não conseguia fugir da visão que deduzia ser o inferno na terra.

Ficava cada vez mais difícil entender o que estava acontecendo ali. Ao longe, o Edifício Joelma. De sobressalto, a voz de um adulto gritando. Era uma mulher enunciando seu suicídio de forma desesperadora.

Em sua rua encontrava-se o silêncio aterrador. Quando abriu a porta, de perfil, viu uma sombra negra e cabeluda. A comprovação do seu medo veio quando chamou seu gato para vir de encontro a ele – nessa hora ouviu uma voz medonha proferindo frases blasfêmicas em velocidade anormal, porém compreensível; quando adentrou a porta pôde sentir a amargura de vir seu gato com as entranhas todas de fora, sendo devorado por mais uma representação do coisa ruim. O horror cobriu a alma de Emanuel como se um balde de sangue fosse jogado nele.

Correu feito andarilho sem rumo. Francisca, sua vizinha praticante da feitiçaria, ouviu o eco de Emanuel sendo arrastado para as profundezas do inferno. O feitiço para desembocar o solitário mas feliz homem tinha dado certo.

VozVAZIO... Ecoando...

sábado, julho 14, 2012

Inverso

Já sou eu quem decide fazer e tirar o máximo de proveito da minha vivência. Ensandecida pela possibilidade de um dia voltar a enxergar; mas sei que é impossível. Não adianta fé – eu tenho, e assim me contradigo. Paz interior. No momento, maravilho-me pela existência e a cada belo dia (de céu limpo/cantado pelos pássaros), ou não (aqueles escuros, que sugam sua energia; que dão vontade de enrolar-se num cobertor com pipoca e refrigerante... Talvez chorar? Você acha: ‘’que dia lindo para se suicidar’’), levanto-me, erguida, prosseguindo o que me foi dado.

E que os dias ruins e as crises de choro desçam pelo mais profundo e possessivo ralo, para que eu, assim, possa continuar a ser feliz. Pois enquanto choras, não sendo emoção o motivo... Digo, não exagere no ato.

Apalpo tudo o que tenho pela frente. Decido ir ou ficar, experimentar ou continuar receosa ao gosto que pode ter, deixando de fazer. Independo do sentimento que destroi-nos por dentro.

De outubro, época do meu aniversário, a janeiro, época da saída do velho e entrada do novo, sou banhada e vejo repassar alguns dos importantes e mais felizes acontecimentos do ano.

Paz interior. Sorrisos. Gratificação. Abastecimento. Fortalecimento. Querer. Superação.

Saiba que há uma vida lá fora para se viver. Isto está como uma informação plantada num microchip em nossa cabeça, porém você, atingido, parece não o saber. Rasteiras não devem desanimar, o tempo entrega tudo! Agora, se achar tão sacrificante e difícil, pense em mim.

Da monotonia, renascimento. Deitada, trespassando as horas... Até que levantei com a visão do jeito costumeiro, sacudi meus olhos intencionando me livrar de não sei o que, e percebi que podia enxergar.

Pelo novo viver, a prece aos mortos foi eliminada.
 
Penso que não cegamos, penso que estamos cegos,
Cegos que veem, Cegos que,
vendo não veem(Ensaio Sobre a Cegueira, José Saramago)
cegos que, vendo não veem

segunda-feira, junho 04, 2012

Partida


Se hoje sexo anal é tabu, houve o tempo em que falar de sexo, apenas o tradicional sexo era assunto quase restrito no ambiente familiar. Alguém viveu muito bem o transcurso da puberdade para a fase adulta.

– Os melhores anos da minha vida aconteceram depois da adolescência, velho amigo. Fiz e me deleitei a vera... Ainda falam assim?

– Não entendi uma coisa.

– O quê?

­– Sua adolescência.

– Muita confusão, muita indecisão, e mesmo sabendo da breve temporalidade da existência, só era teórico, sem prática e ação.

– Que foi que tanto fez após?

– Agredi a pureza dos conventos e seminários que restam santos, deixei de lado as mazelas sociais para dedicar ao intenso desfrute.

– ‘’Aproveite o momento’’ – faz o amigo, remetendo-se ao significado do carpe diem.

– Grandes passeios, deitei e rolei na grama. Marquei com pessoas conhecidas a poucos dias de transar, mas não o transar casual comum, sexo por sexo; o que eu almejava era algo que ultrapassasse o curto prazer carnal; tinha de ser mais profundo. Tudo vindo da boa sensação de noite de sexta-feira pós semana cheia; vindo daqueles anos perdidos onde o sufoco, lê-se ‘’sociedade’’, me apregoava. Nada de oportunidades escapando, pelo bem dos mais chegados, o sexo, o amor, a bonança, os mergulhos conscientes sem peso mental no que eu fazia descomplicando o presente.

Despediram-se, pois era tarde. O telefone tocou na casa do amigo e lhe anunciaram a morte do relator das melhores aventuras.

– Esse morreu feliz.
Sorriu.

P.S.: ‘’Colha o dia, confia o mínimo no amanhã. ’’

sábado, abril 28, 2012

Aleijada

Na feira onde eram feitas trocas de produtos por outros produtos estava Beta (-sozinha-humilde-cega-parciamente-e-desligada). Ela precisava de amor; sabia-o, mas se negava a reparar em qualquer moço que encontrasse em seu caminho. Pode imaginar, nem sabia o que era o prazer da carne...

Sua vida, desde o começo, era em formato de flashbacks. Sua fruta preferida: maçã. Flashbacks preto e branco de sabor maçã adocicada vermelha ao ponto de bala para degustação. Rápidos, não? Tamanha doçura continha-nos. Mas como pode, meu Deus, ter solidão acumulada aos montes em suas veias e a vida lhe ser doce? Pois era um doce-não-doce.

Ofélia, sua mãe, cliente mensal da barraca do Seu Nelson, tinha sempre trocas para fazer na feira. Beta a acompanhava em tudo. A mãe meio que compartilhava a solidão da filha, pois não lhe fazia papel de mãe-amiga como toda deveria fazer. Beta de nada se importava, afinal andava viva, mas dormindo e se rastejando em seu cerne.

Se de migalhas vivia era escolha sua revolucionar seu momento. Somos nós os detentores de nossa alegria, mesmo que às vezes dependamos da colaboração dos outros, mesmo que a felicidade seja feita de momentos e não ser definitiva.

Morta-Viva ajudava na louça suja, na sujeira e organização da casa. Teria sim liberdade para sair, namorar, até porque Ofélia estava cansada de somente vê-la presa, com altas demonstrações de falta de ânimo. Nem gosto musical a menina tinha, pois tudo e nada era o mesmo para ela. (Imagina se só falo da música...)

Havia alguma solução cabível à mãe tomar? Bem, enquanto não se sabia a rotina casa-feira era cumprida. Silenciou-se ao sair, manteve-o ao chegar, inclusive nas gentilezas, como cumprimentar os outros ou agradecer.

Pois ao olhar um fruto podre em meio a tantos vistosos e suculentos, comprar os últimos e virar-se – para casa, varrê-la, quem sabe –, dá-se com um rapaz que tão-pouco planejava o amor para seu presente. Como ela. Como todos os jovens despretensiosos, por estarem cientes do quanto amor-próprio é necessário, e do quanto perceber a vida também o é.

Acabou acontecendo.
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