Ofélia, sua mãe, cliente mensal da barraca do Seu Nelson, tinha sempre trocas para fazer na feira. Beta a acompanhava em tudo. A mãe meio que compartilhava a solidão da filha, pois não lhe fazia papel de mãe-amiga como toda deveria fazer. Beta de nada se importava, afinal andava viva, mas dormindo e se rastejando em seu cerne.
Se de migalhas vivia era escolha sua revolucionar seu momento. Somos nós os detentores de nossa alegria, mesmo que às vezes dependamos da colaboração dos outros, mesmo que a felicidade seja feita de momentos e não ser definitiva.
Morta-Viva ajudava na louça suja, na sujeira e organização da casa. Teria sim liberdade para sair, namorar, até porque Ofélia estava cansada de somente vê-la presa, com altas demonstrações de falta de ânimo. Nem gosto musical a menina tinha, pois tudo e nada era o mesmo para ela. (Imagina se só falo da música...)
Havia alguma solução cabível à mãe tomar? Bem, enquanto não se sabia a rotina casa-feira era cumprida. Silenciou-se ao sair, manteve-o ao chegar, inclusive nas gentilezas, como cumprimentar os outros ou agradecer.
Pois ao olhar um fruto podre em meio a tantos vistosos e suculentos, comprar os últimos e virar-se – para casa, varrê-la, quem sabe –, dá-se com um rapaz que tão-pouco planejava o amor para seu presente. Como ela. Como todos os jovens despretensiosos, por estarem cientes do quanto amor-próprio é necessário, e do quanto perceber a vida também o é.
Acabou acontecendo.